segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Do julgamento alheio

“Falam de tudo. Da moral, do comportamento, dos sentimentos, das reações, dos medos, das imperfeições, dos erros, das criancices, ranzinzisses, chatices, mesmices, grandezas, feitos, espantos. Sobretudo falam do comportamento e falam porque supõem saber. Mas não sabem, porque jamais foram capazes de sentir como o outro sente. Se sentissem não falariam.”

Nelson Rodrigues

Carta - Mário Quintana

Meu caro poeta,

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola tracada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos , aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? - perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: "eu vos trago a verdade", enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: "eu te trago a minha verdade." E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócritos!

Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as disgressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: "O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?" A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.

A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.

Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: "Eu não te largarei até que me abençoes". Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técninca dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.

Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.

Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?

Mario Quintana

domingo, 23 de outubro de 2011

Faz-sendo

E então já não era o que fora, e
não esperava mais o que poderia ser.
Fruto de portantos, todavias e entretantos.

Fez-se fazer
sendo o que sentia,
sem, por ora,
saber o que queria.

sábado, 2 de abril de 2011

O grande amor

"Eu sempre achei que o amor, que o grande amor fosse incondicional. Que quando houvesse um grande encontro entre duas pessoas tudo pudesse acontecer… Porque se aquele fosse o grande amor, ele sempre voltaria triunfal… Mas nem todo amor é incondicional… Acreditar na eternidade do amor é precipitar o seu fim. Porque você acha que esse amor aguenta tudo, então de um jeito ou de outro você acaba fazendo esse amor passar por tudo…. Um grande amor não é possível. E talvez por isso é que seja grande – para que nele caiba o impossível."

Pelo fictício André Newmann.
Em http://afinaloquequeremasmulheres.globo.com/platb/andrenewmann/

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Virtue, Civilization and the Restitution of Man

"O fato de a virtude e a civilização estarem em declínio já se encontra acima de qualquer dúvida. A própria linguagem está corrompida e a falência moral é mascarada pelos eufemismos. [...] Para Platão e Aristóteles, a ética era tida como uma ciência racional, já que a questão de como o ser humano deve viver para tornar-se cada vez melhor é objetiva. O modernismo, entretanto, inaugurou uma concepção de ciência como estudo de uma natureza vazia de propósito e assimilou toda a razão aos métodos empíricos e lógicos da ciência. Com base nesse modelo reducionista, não se tem como justificar a ética tradicional racionalmente, porque ela não é nem verificável pela observação nem pode ser provada através da lógica. No lugar da ética tradicional, portanto, foi preciso colocar algum substituto racional. [...] Os educadores até mostram boas intenções ao tentarem preparar as crianças para os perigos deste mundo, informando-as sobre as drogas, a violência e o abuso sexual, mas tais programas não falharam apenas em promover o caráter delas, eles “saíram pela culatras, exacerbando os dilemas que buscavam resolver”. Causaram assim o crescimento do medo, paranóia, e, portanto, do ódio e da falta de esperança, que atualmente incentiva as crianças a experimentar aqueles comportamentos que elas sabem muito bem que são perigosos. O fato de uma pessoa meramente saber que algo pode lhe fazer mal não será suficiente para a dissuadir, se a vida lhe parece privada de sentido e ninguém lhe incutiu motivações mais nobres."

Angus Menuge in Virtue, Civilization and the Restitution of M

Liberdade material

"Olho adiante, portanto, em dias não muito longínquos, para a maior mudança jamais ocorrida na vida material da humanidade em seu conjunto. Vejo-nos livres para voltarmos aos princípios mais claros e corretos da religião e da virtude tradicional – que a avareza é um vicio, a exação da usura é um delito e o amor ao dinheiro é detestável, e aqueles que trilham verdadeiramente o caminho da virtude e da sabedoria conferem menos atenção ao amanhã. Valorizaremos mais os fins do que os meios e preferiremos o bom ao útil. Reverenciaremos aqueles que conseguem nos ensinar como aproveitar as horas e os dias virtuosamente e bem, as encantadoras pessoas capazes de gozar diretamente com as coisas, os lírios do campo que não fiam nem tecem."

John Maynard Keynes

A incoerência da vaidade

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto


"Mesmo um observador generoso terá de conceder que muitos comportamentos, opções e atitudes dos seres humanos se devem à vaidade. O próprio termo, contudo, aponta para a razão pela qual não é uma boa ideia ser vaidoso: o seu étimo latino, vanitas, significa vácuo ou vazio. A ideia subjacente é que a vaidade é um vapor que não se condensa perante a fria análise, antes desaparecendo completamente de vista: um pouco como alguém que se dedica de alma e coração a projectos que mais tarde reconhece que não valiam a pena.
Contudo, não parece possível diminuir a vaidade se a ilusão cognitiva que está na sua base não for adequadamente exposta. Na verdade, parecerá até um mero moralismo — ele mesmo vácuo — pregar contra a vaidade: afinal, qual é o problema de ser vaidoso? Efectivamente, a vaidade é uma forte motivação que talvez esteja na base de muitas realizações humanas extraordinárias: cientistas e desportistas, filósofos e artistas, escritores e estadistas, poderão ter como motivação principal a vaidade, e o resultado dessa motivação pode ser grandiosa. Quem sabe quantos deles teriam dedicado tanta energia ao seu trabalho, deixando-nos obras ímpares que nos dão a conhecer importantes aspectos da verdade e do valor?
Contudo, mal se põe as coisas nestes termos, algo de profundamente errado começa a tornar-se visível: a discrepância entre o genuíno valor do que é alcançado e a puerícia da motivação que lhe está na base. Uma pessoa que fica vaidosa por ter descoberto a origem do sistema solar ou o cálculo infinitesimal introduz uma dissonância cognitiva: parece dar mais valor ao que tem menos valor, e dar menos valor ao que tem mais valor. O que tem valor é o que a pessoa fez e não o facto de ter sido ela a fazê-lo, e ainda menos a reacção alheia, real ou imaginária, de admiração por quem o fez. Está longe de ser admirável que uma pessoa se dedique a algo genuinamente de valor tendo como motivação a frivolidade de ser admirado pelos outros.
É defensável que a ilusão cognitiva que poderá estar na base da vaidade é, algo incoerentemente, a humildade epistémica. O nosso conhecimento e as nossas valorizações dependem, na sua maior parte, dos outros. Não apenas na acepção trivial em que só poucas pessoas sabem primitivamente como é o deserto do Saara, por exemplo, sabendo a maior parte apenas secundariamente, por testemunho, mas no sentido mais profundo em que a estrutura da justificação, em quaisquer seres falíveis como nós, depende crucialmente dos outros. Somos todos falíveis, mas a probabilidade de uma crença ser falsa é menor se várias pessoas diferentes a testarem cuidadosamente e concluírem que é verdadeira. Não é, contudo, o número bruto de pessoas que conta, mas o cuidado posto na avaliação: não se decide a plausibilidade por maioria, nem sequer por uma maioria epistemicamente proba, mas quando esta última adopta uma dada crença isso é um indício importante, ainda que não decisivo, da sua verdade.
É defensável que é esta dependência epistémica do que pensam os outros que está na origem da vaidade. O vaidoso encontra-se assim numa posição algo incoerente porque ao mesmo tempo que despreza os outros — e por isso a sua actividade não é generosa e altruísta, visando antes tão-somente o seu próprio (ilusório) engrandecimento — tudo faz para ter o seu reconhecimento. Já que não se dá qualquer atenção generosa ao que os outros precisam, nem se lhes tenta devolver o que de outros recebemos, seria mais coerente não dar qualquer importância ao que pensam de nós, dedicando a nossa atenção exclusivamente ao que nos interessa e realiza.
Não é por um qualquer moralismo provinciano que a vaidade é condenável, mas antes porque envolve inevitavelmente a falsidade. A primeira é a falsidade acerca do que nos dá ou não valor: somos prezáveis ou desprezáveis sobretudo em função de acrescentarmos valor ou desvalor ao mundo, e não em função exclusivamente do que os outros pensam de nós. Nomeadamente, porque os outros podem estar profundamente enganados quanto ao valor do que fazemos, sendo uma lição óbvia da história que nem as grandes multidões nem os ambientes sufocantes de pequenas comunidades autofágicas produz costumeiramente pessoas de juízo apurado quanto ao que tem ou não valor.
A segunda é a falsidade acerca das nossas capacidades para ajuizar honestamente as coisas. Sendo verdade que nenhum de nós é infalível, e que precisamos de contrastar cuidadosamente os nossos juízos com os dos outros, é no entanto falso que tenhamos de o fazer com quaisquer pessoas. Eu não tenho de ir à sapataria ver se as pessoas lá prezam a actividade filosófica, por exemplo, tal como um pintor não tem de ir ao banco ver se as pessoas lá prezam a pintura. Ele e eu sabemos com razoável honestidade, pelo conhecimento da própria história da humanidade, que a filosofia e a pintura têm valor.
Claro que não sabemos, nem ele nem eu, se as coisas particulares que fazemos — os quadros que ele pinta, os textos que eu escrevo — se têm valor superlativo. Mas é pura e simplesmente falso que não saibamos que têm valor, se o fizermos com honestidade e o avaliarmos friamente. Não podemos saber se tem valor superlativo porque isso é algo que talvez só se saiba em contraste com a restante produção do nosso tempo histórico; mas podemos perfeitamente saber se tem ou não um valor modesto, que resulta de um trabalho honestamente feito que visa a excelência e não o engrandecimento pessoal.
Mas se isto for assim, então também não é particularmente sábio ansiar pela aprovação dos que nos rodeiam, porque também eles não sabem se o nosso trabalho tem realmente valor superlativo. Pelo que voltamos à única coisa que podemos saber: é um trabalho modesto bem feito, ou não? E isto podemos saber sem ter de o ver reflectido nas palmadinhas nas costas de quem nos rodeia.
A vaidade, e a ilusão cognitiva que parece estar na sua base, poderá explicar a atenção exagerada que hoje se dá à originalidade, em detrimento da criação, confundindo-se ambos os conceitos. A criação não tem de ser original; criar é um acto maravilhoso em que usamos as nossas capacidades e talentos, fruto de anos de estudo e trabalho, e criamos algo por nós mesmos. É irrelevante se isso que estamos criando é superlativamente original ou nem por isso; o que realmente conta é que não é uma cópia, é algo que criamos, e criamo-lo porque nos treinámos durante anos para poder criá-lo.
A originalidade é apenas a novidade superlativa. E uma vez mais não podemos realmente saber, mergulhados que estamos no nosso tempo, se algo é superlativamente original ou se apenas o parece. A vaidade parece explicar a importância desmedida que tantos criadores conceptual e psicologicamente confundidos dão à originalidade: ser criador, deste ponto de vista embaciado, é ser original, ser diferente, para ser invejado pelos outros. A verdade é que ser um criador é criar algo novo mesmo que não seja uma novidade. E a ideia de que só tem valor a novidade é pura e simplesmente infantil: a primeira sonata para piano não tem mais valor por ser a primeira, nem o primeiro quadro cubista tem mais valor por não existir qualquer quadro cubista anterior.
É verdade que prezamos e admiramos, correctamente, a novidade superlativa. Esta é, sem dúvida, uma manifestação valiosa da criatividade. Mas ocorre com a originalidade um pouco o que ocorre com o paradoxo do hedonismo: se tudo o que visarmos for o prazer, em vez de outros valores importantes na vida, teremos uma vida menos prazerosa; analogamente, se tudo o que visamos na criação for a novidade retumbante, não seremos provavelmente capazes nem de criar algo de valor modesto, que possa ser honestamente ajuizado como valioso.
A incoerência da vaidade consiste em menorizar a avaliação honesta que nós mesmos podemos fazer das nossas actividades, dando valor superlativo ao juízo de pessoas que, porque as desprezamos, não visamos ajudar com o nosso trabalho honesto. O susto permanente em que vive o vaidoso torna o seu estilo de vida pouco recomendável. O criador modesto, pelo contrário, visa apenas acrescentar modestamente valor ao mundo, devolvendo aos outros o que de outros colheu. E se a vida de um tende a ser endeusada no cinema de Hollywood e noutras manifestações de infantilidade, é a vida do outro que devemos querer para nós próprios, se quisermos sentir-nos felizes e realizados."