sexta-feira, 21 de junho de 2013

Passeata

Estive na passeata em Americana. Mais de 10 mil pessoas, desde crianças até idosos. Contando que há 200 mil habitantes, os participantes representam pelo menos 5% da cidade. Impressionante. Muitos saiam das casas, ou espiavam das sacadas curiosos e recebiam o convite do coral em uníssono: "Vem pra rua! Vem pra rua!"

É lindo de ver. Realmente emociona. Fiquei meia hora parado em cima de uma mureta para admirar a mobilização histórica, ouvir o que cada grupo gritava e ler seus cartazes.


Será difícil ouvir novamente certas generalizações como a de que o todos brasileiros são apáticos, alienados e que as redes sociais são o ópio do povo. 

Só tinha visto tanta gente junta assim, cantando e gritando, em estádios de futebol. É muito legal ver milhares de cidadãos saindo às ruas em plena Copa das Confederações mas com outros motivos. Quem sabe ano que vem, ano de Copa do Mundo e de eleição, isso continue.

Não havia uma causa única, na verdade houve até gritos e cartazes divergentes e contraditórios. Acho que algumas manifestações, com grupos menores, vão focar em temas específicos, como já vem ocorrendo, mas não consigo julgar mal aqueles que se juntam por causas diversas, nem mesmo aqueles que se participam apenas pela festa, desde que não vão para atrapalhar e praticar atos de violência sem sentido (como hoje que vi um cara soltando um rojão em direção à sacada de um prédio e quase acertar uma mulher que assistia inocentemente). 

Essa participação heterogênea faz parte da democracia. Cada um tem seus motivos. Aí entra a política que muitos repudiam. O que estamos fazendo, as manifestações, é política! Surpresa! Tchan tchan! Talvez uma das coisas mais legais dessas manifestações seja o despertar do espírito político. Há diversas causas, mas talvez na grande maioria há a descrença no papel das instituições e representatividade dos políticos. Assim, o brasileiro repudia qualquer menção à política. Se tornou algo pejorativo. Mas talvez, seja isso um dos nossos problemas. A ausência da população na política. Isso é visível quando o povo sai às ruas, consegue atenção do governo, da mídia, do exterior, mas não consegue ir além dos gritos de revolta. 

Fiquei sabendo que na terça-feira houve protesto em frente à prefeitura de Piracicaba e o prefeito aceitou conversar, mas pediu que subissem apenas 8. Os manifestantes recusaram alegando que havia muito mais gente lá embaixo. Mas convenhamos, sabemos que não seria possível o prefeito conversar com 500 pessoas de uma vez. Então, apesar da oportunidade de diálogo, recusaram subir. Penso que talvez não tivessem nada a dizer. Talvez o protesto seja mesmo “abaixo à corrupção”, “o gigante acordou”, mas não há propostas ou soluções. Talvez também, essa falta de respostas que contribua na patifaria que ocorre no governo. Na falta de soluções, acabam optando pelos seus próprios interesses.

Resumindo, vejo como uma das grandes motivações a descrença nas instituições e representatividade dos políticos. Talvez seja necessária uma reforma no sistema político, principalmente quanto às eleições (financiamento de campanha, coligações, tempo de TV, dentre outros). E considero um dos grandes avanços o despertar crítico, político e democrático. Sempre ocorreram manifestações, mas acho que hoje há mais gente pronta a ajudar e fazer volume nos protestos. E os partidos e a mídia estão mais sensíveis às manifestações, se intimidaram. Mas falta desenvolver propostas e capacidade de comunicação. 

PS.: Outro dia entro na questão do partidarismo que parece mais torcida de futebol: “o meu partido é o melhor, os outros são todos ruins”. Em toda política há prós e contras, o Brasil é enorme, há interesses dos mais diversos. E mesmo que os fins possam parecer iguais, os meios de resolver são diversos. Mas temos que tentar fazer o melhor.

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