"Olho adiante, portanto, em dias não muito longínquos, para a maior mudança jamais ocorrida na vida material da humanidade em seu conjunto. Vejo-nos livres para voltarmos aos princípios mais claros e corretos da religião e da virtude tradicional – que a avareza é um vicio, a exação da usura é um delito e o amor ao dinheiro é detestável, e aqueles que trilham verdadeiramente o caminho da virtude e da sabedoria conferem menos atenção ao amanhã. Valorizaremos mais os fins do que os meios e preferiremos o bom ao útil. Reverenciaremos aqueles que conseguem nos ensinar como aproveitar as horas e os dias virtuosamente e bem, as encantadoras pessoas capazes de gozar diretamente com as coisas, os lírios do campo que não fiam nem tecem."
John Maynard Keynes
sexta-feira, 1 de abril de 2011
A incoerência da vaidade
Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto
"Mesmo um observador generoso terá de conceder que muitos comportamentos, opções e atitudes dos seres humanos se devem à vaidade. O próprio termo, contudo, aponta para a razão pela qual não é uma boa ideia ser vaidoso: o seu étimo latino, vanitas, significa vácuo ou vazio. A ideia subjacente é que a vaidade é um vapor que não se condensa perante a fria análise, antes desaparecendo completamente de vista: um pouco como alguém que se dedica de alma e coração a projectos que mais tarde reconhece que não valiam a pena.
Contudo, não parece possível diminuir a vaidade se a ilusão cognitiva que está na sua base não for adequadamente exposta. Na verdade, parecerá até um mero moralismo — ele mesmo vácuo — pregar contra a vaidade: afinal, qual é o problema de ser vaidoso? Efectivamente, a vaidade é uma forte motivação que talvez esteja na base de muitas realizações humanas extraordinárias: cientistas e desportistas, filósofos e artistas, escritores e estadistas, poderão ter como motivação principal a vaidade, e o resultado dessa motivação pode ser grandiosa. Quem sabe quantos deles teriam dedicado tanta energia ao seu trabalho, deixando-nos obras ímpares que nos dão a conhecer importantes aspectos da verdade e do valor?
Contudo, mal se põe as coisas nestes termos, algo de profundamente errado começa a tornar-se visível: a discrepância entre o genuíno valor do que é alcançado e a puerícia da motivação que lhe está na base. Uma pessoa que fica vaidosa por ter descoberto a origem do sistema solar ou o cálculo infinitesimal introduz uma dissonância cognitiva: parece dar mais valor ao que tem menos valor, e dar menos valor ao que tem mais valor. O que tem valor é o que a pessoa fez e não o facto de ter sido ela a fazê-lo, e ainda menos a reacção alheia, real ou imaginária, de admiração por quem o fez. Está longe de ser admirável que uma pessoa se dedique a algo genuinamente de valor tendo como motivação a frivolidade de ser admirado pelos outros.
É defensável que a ilusão cognitiva que poderá estar na base da vaidade é, algo incoerentemente, a humildade epistémica. O nosso conhecimento e as nossas valorizações dependem, na sua maior parte, dos outros. Não apenas na acepção trivial em que só poucas pessoas sabem primitivamente como é o deserto do Saara, por exemplo, sabendo a maior parte apenas secundariamente, por testemunho, mas no sentido mais profundo em que a estrutura da justificação, em quaisquer seres falíveis como nós, depende crucialmente dos outros. Somos todos falíveis, mas a probabilidade de uma crença ser falsa é menor se várias pessoas diferentes a testarem cuidadosamente e concluírem que é verdadeira. Não é, contudo, o número bruto de pessoas que conta, mas o cuidado posto na avaliação: não se decide a plausibilidade por maioria, nem sequer por uma maioria epistemicamente proba, mas quando esta última adopta uma dada crença isso é um indício importante, ainda que não decisivo, da sua verdade.
É defensável que é esta dependência epistémica do que pensam os outros que está na origem da vaidade. O vaidoso encontra-se assim numa posição algo incoerente porque ao mesmo tempo que despreza os outros — e por isso a sua actividade não é generosa e altruísta, visando antes tão-somente o seu próprio (ilusório) engrandecimento — tudo faz para ter o seu reconhecimento. Já que não se dá qualquer atenção generosa ao que os outros precisam, nem se lhes tenta devolver o que de outros recebemos, seria mais coerente não dar qualquer importância ao que pensam de nós, dedicando a nossa atenção exclusivamente ao que nos interessa e realiza.
Não é por um qualquer moralismo provinciano que a vaidade é condenável, mas antes porque envolve inevitavelmente a falsidade. A primeira é a falsidade acerca do que nos dá ou não valor: somos prezáveis ou desprezáveis sobretudo em função de acrescentarmos valor ou desvalor ao mundo, e não em função exclusivamente do que os outros pensam de nós. Nomeadamente, porque os outros podem estar profundamente enganados quanto ao valor do que fazemos, sendo uma lição óbvia da história que nem as grandes multidões nem os ambientes sufocantes de pequenas comunidades autofágicas produz costumeiramente pessoas de juízo apurado quanto ao que tem ou não valor.
A segunda é a falsidade acerca das nossas capacidades para ajuizar honestamente as coisas. Sendo verdade que nenhum de nós é infalível, e que precisamos de contrastar cuidadosamente os nossos juízos com os dos outros, é no entanto falso que tenhamos de o fazer com quaisquer pessoas. Eu não tenho de ir à sapataria ver se as pessoas lá prezam a actividade filosófica, por exemplo, tal como um pintor não tem de ir ao banco ver se as pessoas lá prezam a pintura. Ele e eu sabemos com razoável honestidade, pelo conhecimento da própria história da humanidade, que a filosofia e a pintura têm valor.
Claro que não sabemos, nem ele nem eu, se as coisas particulares que fazemos — os quadros que ele pinta, os textos que eu escrevo — se têm valor superlativo. Mas é pura e simplesmente falso que não saibamos que têm valor, se o fizermos com honestidade e o avaliarmos friamente. Não podemos saber se tem valor superlativo porque isso é algo que talvez só se saiba em contraste com a restante produção do nosso tempo histórico; mas podemos perfeitamente saber se tem ou não um valor modesto, que resulta de um trabalho honestamente feito que visa a excelência e não o engrandecimento pessoal.
Mas se isto for assim, então também não é particularmente sábio ansiar pela aprovação dos que nos rodeiam, porque também eles não sabem se o nosso trabalho tem realmente valor superlativo. Pelo que voltamos à única coisa que podemos saber: é um trabalho modesto bem feito, ou não? E isto podemos saber sem ter de o ver reflectido nas palmadinhas nas costas de quem nos rodeia.
A vaidade, e a ilusão cognitiva que parece estar na sua base, poderá explicar a atenção exagerada que hoje se dá à originalidade, em detrimento da criação, confundindo-se ambos os conceitos. A criação não tem de ser original; criar é um acto maravilhoso em que usamos as nossas capacidades e talentos, fruto de anos de estudo e trabalho, e criamos algo por nós mesmos. É irrelevante se isso que estamos criando é superlativamente original ou nem por isso; o que realmente conta é que não é uma cópia, é algo que criamos, e criamo-lo porque nos treinámos durante anos para poder criá-lo.
A originalidade é apenas a novidade superlativa. E uma vez mais não podemos realmente saber, mergulhados que estamos no nosso tempo, se algo é superlativamente original ou se apenas o parece. A vaidade parece explicar a importância desmedida que tantos criadores conceptual e psicologicamente confundidos dão à originalidade: ser criador, deste ponto de vista embaciado, é ser original, ser diferente, para ser invejado pelos outros. A verdade é que ser um criador é criar algo novo mesmo que não seja uma novidade. E a ideia de que só tem valor a novidade é pura e simplesmente infantil: a primeira sonata para piano não tem mais valor por ser a primeira, nem o primeiro quadro cubista tem mais valor por não existir qualquer quadro cubista anterior.
É verdade que prezamos e admiramos, correctamente, a novidade superlativa. Esta é, sem dúvida, uma manifestação valiosa da criatividade. Mas ocorre com a originalidade um pouco o que ocorre com o paradoxo do hedonismo: se tudo o que visarmos for o prazer, em vez de outros valores importantes na vida, teremos uma vida menos prazerosa; analogamente, se tudo o que visamos na criação for a novidade retumbante, não seremos provavelmente capazes nem de criar algo de valor modesto, que possa ser honestamente ajuizado como valioso.
A incoerência da vaidade consiste em menorizar a avaliação honesta que nós mesmos podemos fazer das nossas actividades, dando valor superlativo ao juízo de pessoas que, porque as desprezamos, não visamos ajudar com o nosso trabalho honesto. O susto permanente em que vive o vaidoso torna o seu estilo de vida pouco recomendável. O criador modesto, pelo contrário, visa apenas acrescentar modestamente valor ao mundo, devolvendo aos outros o que de outros colheu. E se a vida de um tende a ser endeusada no cinema de Hollywood e noutras manifestações de infantilidade, é a vida do outro que devemos querer para nós próprios, se quisermos sentir-nos felizes e realizados."
Universidade Federal de Ouro Preto
"Mesmo um observador generoso terá de conceder que muitos comportamentos, opções e atitudes dos seres humanos se devem à vaidade. O próprio termo, contudo, aponta para a razão pela qual não é uma boa ideia ser vaidoso: o seu étimo latino, vanitas, significa vácuo ou vazio. A ideia subjacente é que a vaidade é um vapor que não se condensa perante a fria análise, antes desaparecendo completamente de vista: um pouco como alguém que se dedica de alma e coração a projectos que mais tarde reconhece que não valiam a pena.
Contudo, não parece possível diminuir a vaidade se a ilusão cognitiva que está na sua base não for adequadamente exposta. Na verdade, parecerá até um mero moralismo — ele mesmo vácuo — pregar contra a vaidade: afinal, qual é o problema de ser vaidoso? Efectivamente, a vaidade é uma forte motivação que talvez esteja na base de muitas realizações humanas extraordinárias: cientistas e desportistas, filósofos e artistas, escritores e estadistas, poderão ter como motivação principal a vaidade, e o resultado dessa motivação pode ser grandiosa. Quem sabe quantos deles teriam dedicado tanta energia ao seu trabalho, deixando-nos obras ímpares que nos dão a conhecer importantes aspectos da verdade e do valor?
Contudo, mal se põe as coisas nestes termos, algo de profundamente errado começa a tornar-se visível: a discrepância entre o genuíno valor do que é alcançado e a puerícia da motivação que lhe está na base. Uma pessoa que fica vaidosa por ter descoberto a origem do sistema solar ou o cálculo infinitesimal introduz uma dissonância cognitiva: parece dar mais valor ao que tem menos valor, e dar menos valor ao que tem mais valor. O que tem valor é o que a pessoa fez e não o facto de ter sido ela a fazê-lo, e ainda menos a reacção alheia, real ou imaginária, de admiração por quem o fez. Está longe de ser admirável que uma pessoa se dedique a algo genuinamente de valor tendo como motivação a frivolidade de ser admirado pelos outros.
É defensável que a ilusão cognitiva que poderá estar na base da vaidade é, algo incoerentemente, a humildade epistémica. O nosso conhecimento e as nossas valorizações dependem, na sua maior parte, dos outros. Não apenas na acepção trivial em que só poucas pessoas sabem primitivamente como é o deserto do Saara, por exemplo, sabendo a maior parte apenas secundariamente, por testemunho, mas no sentido mais profundo em que a estrutura da justificação, em quaisquer seres falíveis como nós, depende crucialmente dos outros. Somos todos falíveis, mas a probabilidade de uma crença ser falsa é menor se várias pessoas diferentes a testarem cuidadosamente e concluírem que é verdadeira. Não é, contudo, o número bruto de pessoas que conta, mas o cuidado posto na avaliação: não se decide a plausibilidade por maioria, nem sequer por uma maioria epistemicamente proba, mas quando esta última adopta uma dada crença isso é um indício importante, ainda que não decisivo, da sua verdade.
É defensável que é esta dependência epistémica do que pensam os outros que está na origem da vaidade. O vaidoso encontra-se assim numa posição algo incoerente porque ao mesmo tempo que despreza os outros — e por isso a sua actividade não é generosa e altruísta, visando antes tão-somente o seu próprio (ilusório) engrandecimento — tudo faz para ter o seu reconhecimento. Já que não se dá qualquer atenção generosa ao que os outros precisam, nem se lhes tenta devolver o que de outros recebemos, seria mais coerente não dar qualquer importância ao que pensam de nós, dedicando a nossa atenção exclusivamente ao que nos interessa e realiza.
Não é por um qualquer moralismo provinciano que a vaidade é condenável, mas antes porque envolve inevitavelmente a falsidade. A primeira é a falsidade acerca do que nos dá ou não valor: somos prezáveis ou desprezáveis sobretudo em função de acrescentarmos valor ou desvalor ao mundo, e não em função exclusivamente do que os outros pensam de nós. Nomeadamente, porque os outros podem estar profundamente enganados quanto ao valor do que fazemos, sendo uma lição óbvia da história que nem as grandes multidões nem os ambientes sufocantes de pequenas comunidades autofágicas produz costumeiramente pessoas de juízo apurado quanto ao que tem ou não valor.
A segunda é a falsidade acerca das nossas capacidades para ajuizar honestamente as coisas. Sendo verdade que nenhum de nós é infalível, e que precisamos de contrastar cuidadosamente os nossos juízos com os dos outros, é no entanto falso que tenhamos de o fazer com quaisquer pessoas. Eu não tenho de ir à sapataria ver se as pessoas lá prezam a actividade filosófica, por exemplo, tal como um pintor não tem de ir ao banco ver se as pessoas lá prezam a pintura. Ele e eu sabemos com razoável honestidade, pelo conhecimento da própria história da humanidade, que a filosofia e a pintura têm valor.
Claro que não sabemos, nem ele nem eu, se as coisas particulares que fazemos — os quadros que ele pinta, os textos que eu escrevo — se têm valor superlativo. Mas é pura e simplesmente falso que não saibamos que têm valor, se o fizermos com honestidade e o avaliarmos friamente. Não podemos saber se tem valor superlativo porque isso é algo que talvez só se saiba em contraste com a restante produção do nosso tempo histórico; mas podemos perfeitamente saber se tem ou não um valor modesto, que resulta de um trabalho honestamente feito que visa a excelência e não o engrandecimento pessoal.
Mas se isto for assim, então também não é particularmente sábio ansiar pela aprovação dos que nos rodeiam, porque também eles não sabem se o nosso trabalho tem realmente valor superlativo. Pelo que voltamos à única coisa que podemos saber: é um trabalho modesto bem feito, ou não? E isto podemos saber sem ter de o ver reflectido nas palmadinhas nas costas de quem nos rodeia.
A vaidade, e a ilusão cognitiva que parece estar na sua base, poderá explicar a atenção exagerada que hoje se dá à originalidade, em detrimento da criação, confundindo-se ambos os conceitos. A criação não tem de ser original; criar é um acto maravilhoso em que usamos as nossas capacidades e talentos, fruto de anos de estudo e trabalho, e criamos algo por nós mesmos. É irrelevante se isso que estamos criando é superlativamente original ou nem por isso; o que realmente conta é que não é uma cópia, é algo que criamos, e criamo-lo porque nos treinámos durante anos para poder criá-lo.
A originalidade é apenas a novidade superlativa. E uma vez mais não podemos realmente saber, mergulhados que estamos no nosso tempo, se algo é superlativamente original ou se apenas o parece. A vaidade parece explicar a importância desmedida que tantos criadores conceptual e psicologicamente confundidos dão à originalidade: ser criador, deste ponto de vista embaciado, é ser original, ser diferente, para ser invejado pelos outros. A verdade é que ser um criador é criar algo novo mesmo que não seja uma novidade. E a ideia de que só tem valor a novidade é pura e simplesmente infantil: a primeira sonata para piano não tem mais valor por ser a primeira, nem o primeiro quadro cubista tem mais valor por não existir qualquer quadro cubista anterior.
É verdade que prezamos e admiramos, correctamente, a novidade superlativa. Esta é, sem dúvida, uma manifestação valiosa da criatividade. Mas ocorre com a originalidade um pouco o que ocorre com o paradoxo do hedonismo: se tudo o que visarmos for o prazer, em vez de outros valores importantes na vida, teremos uma vida menos prazerosa; analogamente, se tudo o que visamos na criação for a novidade retumbante, não seremos provavelmente capazes nem de criar algo de valor modesto, que possa ser honestamente ajuizado como valioso.
A incoerência da vaidade consiste em menorizar a avaliação honesta que nós mesmos podemos fazer das nossas actividades, dando valor superlativo ao juízo de pessoas que, porque as desprezamos, não visamos ajudar com o nosso trabalho honesto. O susto permanente em que vive o vaidoso torna o seu estilo de vida pouco recomendável. O criador modesto, pelo contrário, visa apenas acrescentar modestamente valor ao mundo, devolvendo aos outros o que de outros colheu. E se a vida de um tende a ser endeusada no cinema de Hollywood e noutras manifestações de infantilidade, é a vida do outro que devemos querer para nós próprios, se quisermos sentir-nos felizes e realizados."
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Bola maior
"Todos os sábios, poetas, filósofos, tiranos, santos e genocidas; todas as pessoas que você conhece, ignora, respeita, despreza, ama ou odeia vivem, ou já viveram, suas vidas inteiras na bola maior. É lá também que estão todos os seus problemas, sonhos e esperanças.
Todas as guerras e crimes, bem como todos os grandes e pequenos atos de sacrifício e generosidade já registrados em algum momento da história aconteceram lá.
Já a bola menor marca a maior distância já viajada por membros de nossa espécie. É o limite atual da experiência humana". Carl Sagan
Todas as guerras e crimes, bem como todos os grandes e pequenos atos de sacrifício e generosidade já registrados em algum momento da história aconteceram lá.
Já a bola menor marca a maior distância já viajada por membros de nossa espécie. É o limite atual da experiência humana". Carl Sagan
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
O Brasil depois das urnas
O Brasil depois das urnas
NEY FIGUEIREDO
Administrar o país e cuidar de alianças políticas para dar sustentabilidade ao governo não será tarefa fácil, seja qual for o nome que sair das urnas
Com as cartas na mesa, o mais importante é indagar que estilo de governo resultará das próximas eleições. Não se pode deixar de apontar diferenças fundamentais entre os dois principais oponentes: a candidata petista, se vencedora, poderá ser continuadora do governo Lula, dependendo das pessoas que a cercarem.
Se o núcleo predominante for ocupado pelo próprio Lula e por nomes como Antônio Palloci, Fernando Pimentel, Paulo Bernardo e José Eduardo Cardoso, é provável que as linhas centrais da política econômica não se afastem muito do modelo atual.
Contudo, se a ala mais radical do PT assumir as rédeas, coisa que Lula nunca permitiu, poderemos ter sérias turbulências pela frente: mais controle do Estado pelo partido, mais burocracia e corporativismo, mais corrupção, mais uso de controles não democráticos, além de aproximação com governos autoritários.
Até o momento, ela tem tido opiniões firmes, com as quais podemos ou não concordar, e tem lutado, como fez durante toda a sua vida, pelo que acredita.
É impossível prever com exatidão qual será o seu comportamento quando estiver, se estiver, na solidão do poder do Planalto, tendo de conviver com uma aliança política que limitará o seu espaço de manobra.
É necessário lembrar que teremos um vice-presidente da República com voo próprio, dirigente de grande partido político e líder de uma bancada majoritária na Câmara e no Senado.
Serra, por outro lado, deverá ter uma gestão mais competitiva, transparente, com menos ingerência de forças partidárias-sindicais.
Não contará, pelo menos no início de seu eventual governo, com maioria na Câmara e no Senado, o que lhe obrigará a gastar grande parte do seu tempo em tentar aumentar a sua base de apoio parlamentar -algo parecido com o que aconteceu no segundo mandato de Fernando Henrique.
Certamente, haverá um novo direcionamento do papel do Estado na economia, o que poderá desagradar parte dos seus apoiadores.
Seja quem for o eleito, vai encontrar o país gozando dos frutos da estabilidade advinda de uma política econômica que seguiu os fundamentos básicos plantados pelo governo de Fernando Henrique, fazendo com que o nosso país passasse com louvor pela recente crise internacional.
Todavia, não se pode deixar de lembrar que o eleito terá que enfrentar a bomba de efeito retardado que Lula vai deixar para o seu sucessor. A política fiscal foi afrouxada, abandonando-se as rígidas metas fiscais do primeiro mandato.
Abriu-se um generoso saco de bondades, ampliando-se de forma inusitada os programas assistenciais. A máquina pública foi inchada com a criação de milhares de cargos, a maioria ocupada por indicados do principal partido de sustentação do governo, o PT.
Administrar o país e cuidar das alianças para dar sustentabilidade política ao governo não será tarefa fácil, seja qual for o nome que resultar das urnas.
NEY FIGUEIREDO, 72, consultor político, é membro do Conselho Superior de Pesquisa de Opinião Pública da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e diretor do Cepac - Centro de Pesquisa, Análise e Comunicação. É autor de "Diálogos com o Poder", entre outras obras.
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br
FOLHA DE S. PAULO
NEY FIGUEIREDO
Administrar o país e cuidar de alianças políticas para dar sustentabilidade ao governo não será tarefa fácil, seja qual for o nome que sair das urnas
Com as cartas na mesa, o mais importante é indagar que estilo de governo resultará das próximas eleições. Não se pode deixar de apontar diferenças fundamentais entre os dois principais oponentes: a candidata petista, se vencedora, poderá ser continuadora do governo Lula, dependendo das pessoas que a cercarem.
Se o núcleo predominante for ocupado pelo próprio Lula e por nomes como Antônio Palloci, Fernando Pimentel, Paulo Bernardo e José Eduardo Cardoso, é provável que as linhas centrais da política econômica não se afastem muito do modelo atual.
Contudo, se a ala mais radical do PT assumir as rédeas, coisa que Lula nunca permitiu, poderemos ter sérias turbulências pela frente: mais controle do Estado pelo partido, mais burocracia e corporativismo, mais corrupção, mais uso de controles não democráticos, além de aproximação com governos autoritários.
Até o momento, ela tem tido opiniões firmes, com as quais podemos ou não concordar, e tem lutado, como fez durante toda a sua vida, pelo que acredita.
É impossível prever com exatidão qual será o seu comportamento quando estiver, se estiver, na solidão do poder do Planalto, tendo de conviver com uma aliança política que limitará o seu espaço de manobra.
É necessário lembrar que teremos um vice-presidente da República com voo próprio, dirigente de grande partido político e líder de uma bancada majoritária na Câmara e no Senado.
Serra, por outro lado, deverá ter uma gestão mais competitiva, transparente, com menos ingerência de forças partidárias-sindicais.
Não contará, pelo menos no início de seu eventual governo, com maioria na Câmara e no Senado, o que lhe obrigará a gastar grande parte do seu tempo em tentar aumentar a sua base de apoio parlamentar -algo parecido com o que aconteceu no segundo mandato de Fernando Henrique.
Certamente, haverá um novo direcionamento do papel do Estado na economia, o que poderá desagradar parte dos seus apoiadores.
Seja quem for o eleito, vai encontrar o país gozando dos frutos da estabilidade advinda de uma política econômica que seguiu os fundamentos básicos plantados pelo governo de Fernando Henrique, fazendo com que o nosso país passasse com louvor pela recente crise internacional.
Todavia, não se pode deixar de lembrar que o eleito terá que enfrentar a bomba de efeito retardado que Lula vai deixar para o seu sucessor. A política fiscal foi afrouxada, abandonando-se as rígidas metas fiscais do primeiro mandato.
Abriu-se um generoso saco de bondades, ampliando-se de forma inusitada os programas assistenciais. A máquina pública foi inchada com a criação de milhares de cargos, a maioria ocupada por indicados do principal partido de sustentação do governo, o PT.
Administrar o país e cuidar das alianças para dar sustentabilidade política ao governo não será tarefa fácil, seja qual for o nome que resultar das urnas.
NEY FIGUEIREDO, 72, consultor político, é membro do Conselho Superior de Pesquisa de Opinião Pública da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e diretor do Cepac - Centro de Pesquisa, Análise e Comunicação. É autor de "Diálogos com o Poder", entre outras obras.
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br
FOLHA DE S. PAULO
sábado, 21 de agosto de 2010
TV nunca mudou eleição presidencial
Desde 89, candidato que estava na frente no início da propaganda eleitoral sempre ganhou a disputa no final
Em outras eleições, como na vitória de Kassab em 2008, TV foi crucial para alterar resultado da disputa
RANIER BRAGON
FERNANDA ODILLA
DE BRASÍLIA
A campanha na TV tem histórico de relevantes movimentações na intenção de voto dos candidatos à Presidência, mas até hoje não teve impacto suficiente para tirar a vitória daquele que iniciou o período na dianteira.
Nas cinco eleições presidenciais após a redemocratização -de 1989 a 2006-, saiu vitorioso o candidato que liderava as pesquisas imediatamente antes da entrada da campanha na TV.
A análise das planilhas do Datafolha mostra que se encontravam nessa situação Fernando Collor (PRN) em 1989, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em 1994 e 1998, e Lula (PT) em 2002 e 2006 -em 94, FHC dividia a ponta com Lula, em empate técnico, mas em ascensão.
Apesar disso, a propaganda televisiva coincidiu com períodos de movimentações que em dois casos levaram um cenário de vitória em primeiro turno para o segundo.
Em 1989, Collor abriu o período da propaganda com sete pontos de vantagem sobre todos os principais oponentes somados. No final, havia caído de 40% para 26% na pesquisa. Embolado na terceira posição, Lula praticamente dobrou seu índice e, por margem estreitíssima, derrotou Leonel Brizola (PDT) e foi ao segundo turno.
Nas vitórias de 1994 e 1998, ambas no primeiro turno, FHC tinha mais minutos na programação eleitoral e assistiu no período televisivo a uma ampliação da vantagem em relação a Lula.
Já em 2002, Lula iniciou a TV com Ciro Gomes (PPS) como seu principal oponente. Entretanto, Ciro derreteu de 27% para 11% das intenções de voto, desempenho em parte atribuído à exploração na TV de frases polêmicas e da discussão com um eleitor.
José Serra (PSDB), dono da maior fatia eletrônica, acabou indo ao segundo turno.
"O horário eleitoral sepultou as chances de Ciro por conta das bobagens que ele falou", disse o cientista político Marcus Figueiredo, professor da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro),
Autor de estudos sobre o tema, ele diz que a propaganda na TV constrói a imagem dos candidatos e pauta debates, mas que está longe de ser a única variável para que o eleitor defina seu voto.
Na disputa de Lula pela reeleição, em 2006, o petista vencia o conjunto dos principais oponentes por dez pontos no início da propaganda.
Em meio à repercussão do episódio em que petistas foram presos tentando comprar um dossiê antitucano e após faltar ao último debate, na TV Globo, teve que disputar o segundo turno com Geraldo Alckmin (PSDB).
As planilhas do Datafolha mostram não haver padrão sobre o momento da campanha na TV em que as intenções de voto se estabilizam.
OUTRAS ELEIÇÕES
Houve mudanças, no entanto, no resultado final de outras eleições. Um dos exemplos mais claros é o da eleição de Gilberto Kassab (DEM) à Prefeitura de São Paulo, em 2008. Em 22 de agosto, na semana de início da propaganda na TV, ele tinha 14%, contra 41% de Marta Suplicy (PT) e 24% de Geraldo Alckmin (PSDB).
Extraído de FOLHA DE SÃO PAULO
Em outras eleições, como na vitória de Kassab em 2008, TV foi crucial para alterar resultado da disputa
RANIER BRAGON
FERNANDA ODILLA
DE BRASÍLIA
A campanha na TV tem histórico de relevantes movimentações na intenção de voto dos candidatos à Presidência, mas até hoje não teve impacto suficiente para tirar a vitória daquele que iniciou o período na dianteira.
Nas cinco eleições presidenciais após a redemocratização -de 1989 a 2006-, saiu vitorioso o candidato que liderava as pesquisas imediatamente antes da entrada da campanha na TV.
A análise das planilhas do Datafolha mostra que se encontravam nessa situação Fernando Collor (PRN) em 1989, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em 1994 e 1998, e Lula (PT) em 2002 e 2006 -em 94, FHC dividia a ponta com Lula, em empate técnico, mas em ascensão.
Apesar disso, a propaganda televisiva coincidiu com períodos de movimentações que em dois casos levaram um cenário de vitória em primeiro turno para o segundo.
Em 1989, Collor abriu o período da propaganda com sete pontos de vantagem sobre todos os principais oponentes somados. No final, havia caído de 40% para 26% na pesquisa. Embolado na terceira posição, Lula praticamente dobrou seu índice e, por margem estreitíssima, derrotou Leonel Brizola (PDT) e foi ao segundo turno.
Nas vitórias de 1994 e 1998, ambas no primeiro turno, FHC tinha mais minutos na programação eleitoral e assistiu no período televisivo a uma ampliação da vantagem em relação a Lula.
Já em 2002, Lula iniciou a TV com Ciro Gomes (PPS) como seu principal oponente. Entretanto, Ciro derreteu de 27% para 11% das intenções de voto, desempenho em parte atribuído à exploração na TV de frases polêmicas e da discussão com um eleitor.
José Serra (PSDB), dono da maior fatia eletrônica, acabou indo ao segundo turno.
"O horário eleitoral sepultou as chances de Ciro por conta das bobagens que ele falou", disse o cientista político Marcus Figueiredo, professor da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro),
Autor de estudos sobre o tema, ele diz que a propaganda na TV constrói a imagem dos candidatos e pauta debates, mas que está longe de ser a única variável para que o eleitor defina seu voto.
Na disputa de Lula pela reeleição, em 2006, o petista vencia o conjunto dos principais oponentes por dez pontos no início da propaganda.
Em meio à repercussão do episódio em que petistas foram presos tentando comprar um dossiê antitucano e após faltar ao último debate, na TV Globo, teve que disputar o segundo turno com Geraldo Alckmin (PSDB).
As planilhas do Datafolha mostram não haver padrão sobre o momento da campanha na TV em que as intenções de voto se estabilizam.
OUTRAS ELEIÇÕES
Houve mudanças, no entanto, no resultado final de outras eleições. Um dos exemplos mais claros é o da eleição de Gilberto Kassab (DEM) à Prefeitura de São Paulo, em 2008. Em 22 de agosto, na semana de início da propaganda na TV, ele tinha 14%, contra 41% de Marta Suplicy (PT) e 24% de Geraldo Alckmin (PSDB).
Extraído de FOLHA DE SÃO PAULO
Cai o ritmo de crescimento do ensino superior
Apesar de as grandes empresas nacionais e estrangeiras enxergarem enorme potencial no mercado de educação, o ritmo de expansão do ensino superior vem caindo.
Segundo a Semesp, o número de instituições privadas saltou 148% de 1999 a 2009. No entanto, o ritmo de alta caiu de 15% entre 2000 e 2004 para 5% nos outros cinco anos.
Os motivos são a carência de financiamento e a baixa qualidade da educação básica, que forma pessoas despreparadas.
Com isso, apenas 14% dos jovens de 18 a 24 anos estavam na universidade em 2009. A meta do governo era elevar esse percentual para 30% em 2010.
A expectativa da Hoper é que o faturamento das empresas (R$ 25 bilhões em 2009) cresça 5% nos próximos três anos.
O Morgan Stanley projeta crescimento de 5% a 6% para o setor nos próximos anos. Segundo o banco, uma expansão mais acelerada depende de como será aplicado o dinheiro do Fundo Social a ser criado com recursos do pré-sal.
Ryon Braga, da Hoper, sugere que o governo crie um fundo de garantia para financiamento privado, o que derrubaria os juros.
"É melhor do que criar novas universidades públicas com custo médio anual de R$ 24 mil por aluno, ante média de R$ 5.000 no setor privado. As privadas estão com vagas sobrando." (MS)
Extraído de FOLHA DE SÃO PAULO
Segundo a Semesp, o número de instituições privadas saltou 148% de 1999 a 2009. No entanto, o ritmo de alta caiu de 15% entre 2000 e 2004 para 5% nos outros cinco anos.
Os motivos são a carência de financiamento e a baixa qualidade da educação básica, que forma pessoas despreparadas.
Com isso, apenas 14% dos jovens de 18 a 24 anos estavam na universidade em 2009. A meta do governo era elevar esse percentual para 30% em 2010.
A expectativa da Hoper é que o faturamento das empresas (R$ 25 bilhões em 2009) cresça 5% nos próximos três anos.
O Morgan Stanley projeta crescimento de 5% a 6% para o setor nos próximos anos. Segundo o banco, uma expansão mais acelerada depende de como será aplicado o dinheiro do Fundo Social a ser criado com recursos do pré-sal.
Ryon Braga, da Hoper, sugere que o governo crie um fundo de garantia para financiamento privado, o que derrubaria os juros.
"É melhor do que criar novas universidades públicas com custo médio anual de R$ 24 mil por aluno, ante média de R$ 5.000 no setor privado. As privadas estão com vagas sobrando." (MS)
Extraído de FOLHA DE SÃO PAULO
domingo, 4 de julho de 2010
Realiade tal como é
"O fato de a virtude e a civilização estarem em declínio já se encontra acima de qualquer dúvida. A própria linguagem está corrompida e a falência moral é mascarada pelos eufemismos. [...] Para Platão e Aristóteles, a ética era tida como uma ciência racional, já que a questão de como o ser humano deve viver para tornar-se cada vez melhor é objetiva. O modernismo, entretanto, inaugurou uma concepção de ciência como estudo de uma natureza vazia de propósito e assimilou toda a razão aos métodos empíricos e lógicos da ciência. Com base nesse modelo reducionista, não se tem como justificar a ética tradicional racionalmente, porque ela não é nem verificável pela observação nem pode ser provada através da lógica. No lugar da ética tradicional, portanto, foi preciso colocar algum substituto racional. [...] Os educadores até mostram boas intenções ao tentarem preparar as crianças para os perigos deste mundo, informando-as sobre as drogas, a violência e o abuso sexual, mas tais programas não falharam apenas em promover o caráter delas, eles “saíram pela culatras, exacerbando os dilemas que buscavam resolver”. Causaram assim o crescimento do medo, paranóia, e, portanto, do ódio e da falta de esperança, que atualmente incentiva as crianças a experimentar aqueles comportamentos que elas sabem muito bem que são perigosos. O fato de uma pessoa meramente saber que algo pode lhe fazer mal não será suficiente para a dissuadir, se a vida lhe parece privada de sentido e ninguém lhe incutiu motivações mais nobres".
“Virtue, Civilization and the Restitution of Man”. Angus Menuge
“Virtue, Civilization and the Restitution of Man”. Angus Menuge
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