sexta-feira, 21 de junho de 2013

Passeata

Estive na passeata em Americana. Mais de 10 mil pessoas, desde crianças até idosos. Contando que há 200 mil habitantes, os participantes representam pelo menos 5% da cidade. Impressionante. Muitos saiam das casas, ou espiavam das sacadas curiosos e recebiam o convite do coral em uníssono: "Vem pra rua! Vem pra rua!"

É lindo de ver. Realmente emociona. Fiquei meia hora parado em cima de uma mureta para admirar a mobilização histórica, ouvir o que cada grupo gritava e ler seus cartazes.


Será difícil ouvir novamente certas generalizações como a de que o todos brasileiros são apáticos, alienados e que as redes sociais são o ópio do povo. 

Só tinha visto tanta gente junta assim, cantando e gritando, em estádios de futebol. É muito legal ver milhares de cidadãos saindo às ruas em plena Copa das Confederações mas com outros motivos. Quem sabe ano que vem, ano de Copa do Mundo e de eleição, isso continue.

Não havia uma causa única, na verdade houve até gritos e cartazes divergentes e contraditórios. Acho que algumas manifestações, com grupos menores, vão focar em temas específicos, como já vem ocorrendo, mas não consigo julgar mal aqueles que se juntam por causas diversas, nem mesmo aqueles que se participam apenas pela festa, desde que não vão para atrapalhar e praticar atos de violência sem sentido (como hoje que vi um cara soltando um rojão em direção à sacada de um prédio e quase acertar uma mulher que assistia inocentemente). 

Essa participação heterogênea faz parte da democracia. Cada um tem seus motivos. Aí entra a política que muitos repudiam. O que estamos fazendo, as manifestações, é política! Surpresa! Tchan tchan! Talvez uma das coisas mais legais dessas manifestações seja o despertar do espírito político. Há diversas causas, mas talvez na grande maioria há a descrença no papel das instituições e representatividade dos políticos. Assim, o brasileiro repudia qualquer menção à política. Se tornou algo pejorativo. Mas talvez, seja isso um dos nossos problemas. A ausência da população na política. Isso é visível quando o povo sai às ruas, consegue atenção do governo, da mídia, do exterior, mas não consegue ir além dos gritos de revolta. 

Fiquei sabendo que na terça-feira houve protesto em frente à prefeitura de Piracicaba e o prefeito aceitou conversar, mas pediu que subissem apenas 8. Os manifestantes recusaram alegando que havia muito mais gente lá embaixo. Mas convenhamos, sabemos que não seria possível o prefeito conversar com 500 pessoas de uma vez. Então, apesar da oportunidade de diálogo, recusaram subir. Penso que talvez não tivessem nada a dizer. Talvez o protesto seja mesmo “abaixo à corrupção”, “o gigante acordou”, mas não há propostas ou soluções. Talvez também, essa falta de respostas que contribua na patifaria que ocorre no governo. Na falta de soluções, acabam optando pelos seus próprios interesses.

Resumindo, vejo como uma das grandes motivações a descrença nas instituições e representatividade dos políticos. Talvez seja necessária uma reforma no sistema político, principalmente quanto às eleições (financiamento de campanha, coligações, tempo de TV, dentre outros). E considero um dos grandes avanços o despertar crítico, político e democrático. Sempre ocorreram manifestações, mas acho que hoje há mais gente pronta a ajudar e fazer volume nos protestos. E os partidos e a mídia estão mais sensíveis às manifestações, se intimidaram. Mas falta desenvolver propostas e capacidade de comunicação. 

PS.: Outro dia entro na questão do partidarismo que parece mais torcida de futebol: “o meu partido é o melhor, os outros são todos ruins”. Em toda política há prós e contras, o Brasil é enorme, há interesses dos mais diversos. E mesmo que os fins possam parecer iguais, os meios de resolver são diversos. Mas temos que tentar fazer o melhor.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Maracanazo


O dia 17.06.2013 foi incrível! 

Mais de 60 mil pessoas foram às ruas em SP, cerca de 100 mil no RJ e mais de 200 mil em diversas cidades do Brasil. Algo realmente inacreditável, que não imaginava ver algum dia. Muita gente ficou perplexa, mas não só aqueles que participaram ou que moravam perto, como também aqueles que acompanharam pela internet ou ficaram sabendo apenas a partir das transmissões ao vivo. Não me engano, sei que o Brasil é enorme e há lugares que não foram afetados por essa euforia e esperança, principalmente gente que ainda não tem a mínima atenção da sociedade. Mas foi histórico. Foi lindo. Tão lindo e surpreendente que nos deixou em êxtase. De forma que parece haver certo clima de vitória, missão cumprida. 

Fazendo tosca analogia à contraditória e agora, de forma quase unânime, hilária (ou lamentável) Copa das Confederações, um jogo foi ganho, mas falta o resto do campeonato. Talvez nem um jogo, mas fizemos um gol no primeiro tempo. E que golaço! Contudo, na humilde opinião de um leigo que sou, creio que o mais difícil está por vir. Não é porque subimos no Congresso que agora só nos resta exigir e gritar que teremos tudo na mão. O berro foi ouvido! O mundo todo parou para escutar, mas temos que ter algo a dizer. 

A faísca dos R$ 0,20 foi alimentada por repressão desproporcional da PM sob ordem de superiores. Não foi a primeira e única manifestação das últimas décadas. Muito pelo contrário! Mas por combinação de fatos essa cresceu e muitos, um a um, foram cedendo, tanto que de cinco mil na quarta manifestação do MPL em SP, somaram-se mais de 60 mil nesta segunda-feira. E agora queremos mais! Todos estão impressionados, jornais nacionais e internacionais já não ignoram mais, políticos demonstram hesitação, receio e despreparo. Há dúvidas e dúvidas do ar. O que é tudo isso? Onde vai parar? 

Para encurtar a reflexão e em breve reorganizar as ideias, os próximos passos serão cada vez mais difíceis. Mostramos força, mas para quê? Não queremos quebrar tudo, queremos construir! Espero que a violência da minoria se reduza ainda mais e as conversas e debates da maioria só aumentem para que todos pensem acerca do futuro. O que queremos para o país? Faltam objetivos claros e realistas. Não basta exigir os fins, devemos mostrar os meios. Elaborar propostas! Somos capazes! 

E precisamos agir rápido, pois as respostas estão surgindo de forma cada vez mais esparsa, desconexa e vazia. Precisamos transformar o sentimento de indignação em projetos, planos e ações. Senão tudo convergirá novamente para o jogo partidário, os grupos se dividirão e nas próximas manifestações teremos 20, 10, 5 mil. Tudo esfriará e sofreremos uma virada histórica e vergonhosa, o novo Maracanazo.


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Do julgamento alheio

“Falam de tudo. Da moral, do comportamento, dos sentimentos, das reações, dos medos, das imperfeições, dos erros, das criancices, ranzinzisses, chatices, mesmices, grandezas, feitos, espantos. Sobretudo falam do comportamento e falam porque supõem saber. Mas não sabem, porque jamais foram capazes de sentir como o outro sente. Se sentissem não falariam.”

Nelson Rodrigues

Carta - Mário Quintana

Meu caro poeta,

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola tracada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos , aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? - perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: "eu vos trago a verdade", enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: "eu te trago a minha verdade." E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócritos!

Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as disgressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: "O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?" A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.

A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.

Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: "Eu não te largarei até que me abençoes". Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técninca dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.

Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.

Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?

Mario Quintana

domingo, 23 de outubro de 2011

Faz-sendo

E então já não era o que fora, e
não esperava mais o que poderia ser.
Fruto de portantos, todavias e entretantos.

Fez-se fazer
sendo o que sentia,
sem, por ora,
saber o que queria.

sábado, 2 de abril de 2011

O grande amor

"Eu sempre achei que o amor, que o grande amor fosse incondicional. Que quando houvesse um grande encontro entre duas pessoas tudo pudesse acontecer… Porque se aquele fosse o grande amor, ele sempre voltaria triunfal… Mas nem todo amor é incondicional… Acreditar na eternidade do amor é precipitar o seu fim. Porque você acha que esse amor aguenta tudo, então de um jeito ou de outro você acaba fazendo esse amor passar por tudo…. Um grande amor não é possível. E talvez por isso é que seja grande – para que nele caiba o impossível."

Pelo fictício André Newmann.
Em http://afinaloquequeremasmulheres.globo.com/platb/andrenewmann/

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Virtue, Civilization and the Restitution of Man

"O fato de a virtude e a civilização estarem em declínio já se encontra acima de qualquer dúvida. A própria linguagem está corrompida e a falência moral é mascarada pelos eufemismos. [...] Para Platão e Aristóteles, a ética era tida como uma ciência racional, já que a questão de como o ser humano deve viver para tornar-se cada vez melhor é objetiva. O modernismo, entretanto, inaugurou uma concepção de ciência como estudo de uma natureza vazia de propósito e assimilou toda a razão aos métodos empíricos e lógicos da ciência. Com base nesse modelo reducionista, não se tem como justificar a ética tradicional racionalmente, porque ela não é nem verificável pela observação nem pode ser provada através da lógica. No lugar da ética tradicional, portanto, foi preciso colocar algum substituto racional. [...] Os educadores até mostram boas intenções ao tentarem preparar as crianças para os perigos deste mundo, informando-as sobre as drogas, a violência e o abuso sexual, mas tais programas não falharam apenas em promover o caráter delas, eles “saíram pela culatras, exacerbando os dilemas que buscavam resolver”. Causaram assim o crescimento do medo, paranóia, e, portanto, do ódio e da falta de esperança, que atualmente incentiva as crianças a experimentar aqueles comportamentos que elas sabem muito bem que são perigosos. O fato de uma pessoa meramente saber que algo pode lhe fazer mal não será suficiente para a dissuadir, se a vida lhe parece privada de sentido e ninguém lhe incutiu motivações mais nobres."

Angus Menuge in Virtue, Civilization and the Restitution of M

Liberdade material

"Olho adiante, portanto, em dias não muito longínquos, para a maior mudança jamais ocorrida na vida material da humanidade em seu conjunto. Vejo-nos livres para voltarmos aos princípios mais claros e corretos da religião e da virtude tradicional – que a avareza é um vicio, a exação da usura é um delito e o amor ao dinheiro é detestável, e aqueles que trilham verdadeiramente o caminho da virtude e da sabedoria conferem menos atenção ao amanhã. Valorizaremos mais os fins do que os meios e preferiremos o bom ao útil. Reverenciaremos aqueles que conseguem nos ensinar como aproveitar as horas e os dias virtuosamente e bem, as encantadoras pessoas capazes de gozar diretamente com as coisas, os lírios do campo que não fiam nem tecem."

John Maynard Keynes

A incoerência da vaidade

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto


"Mesmo um observador generoso terá de conceder que muitos comportamentos, opções e atitudes dos seres humanos se devem à vaidade. O próprio termo, contudo, aponta para a razão pela qual não é uma boa ideia ser vaidoso: o seu étimo latino, vanitas, significa vácuo ou vazio. A ideia subjacente é que a vaidade é um vapor que não se condensa perante a fria análise, antes desaparecendo completamente de vista: um pouco como alguém que se dedica de alma e coração a projectos que mais tarde reconhece que não valiam a pena.
Contudo, não parece possível diminuir a vaidade se a ilusão cognitiva que está na sua base não for adequadamente exposta. Na verdade, parecerá até um mero moralismo — ele mesmo vácuo — pregar contra a vaidade: afinal, qual é o problema de ser vaidoso? Efectivamente, a vaidade é uma forte motivação que talvez esteja na base de muitas realizações humanas extraordinárias: cientistas e desportistas, filósofos e artistas, escritores e estadistas, poderão ter como motivação principal a vaidade, e o resultado dessa motivação pode ser grandiosa. Quem sabe quantos deles teriam dedicado tanta energia ao seu trabalho, deixando-nos obras ímpares que nos dão a conhecer importantes aspectos da verdade e do valor?
Contudo, mal se põe as coisas nestes termos, algo de profundamente errado começa a tornar-se visível: a discrepância entre o genuíno valor do que é alcançado e a puerícia da motivação que lhe está na base. Uma pessoa que fica vaidosa por ter descoberto a origem do sistema solar ou o cálculo infinitesimal introduz uma dissonância cognitiva: parece dar mais valor ao que tem menos valor, e dar menos valor ao que tem mais valor. O que tem valor é o que a pessoa fez e não o facto de ter sido ela a fazê-lo, e ainda menos a reacção alheia, real ou imaginária, de admiração por quem o fez. Está longe de ser admirável que uma pessoa se dedique a algo genuinamente de valor tendo como motivação a frivolidade de ser admirado pelos outros.
É defensável que a ilusão cognitiva que poderá estar na base da vaidade é, algo incoerentemente, a humildade epistémica. O nosso conhecimento e as nossas valorizações dependem, na sua maior parte, dos outros. Não apenas na acepção trivial em que só poucas pessoas sabem primitivamente como é o deserto do Saara, por exemplo, sabendo a maior parte apenas secundariamente, por testemunho, mas no sentido mais profundo em que a estrutura da justificação, em quaisquer seres falíveis como nós, depende crucialmente dos outros. Somos todos falíveis, mas a probabilidade de uma crença ser falsa é menor se várias pessoas diferentes a testarem cuidadosamente e concluírem que é verdadeira. Não é, contudo, o número bruto de pessoas que conta, mas o cuidado posto na avaliação: não se decide a plausibilidade por maioria, nem sequer por uma maioria epistemicamente proba, mas quando esta última adopta uma dada crença isso é um indício importante, ainda que não decisivo, da sua verdade.
É defensável que é esta dependência epistémica do que pensam os outros que está na origem da vaidade. O vaidoso encontra-se assim numa posição algo incoerente porque ao mesmo tempo que despreza os outros — e por isso a sua actividade não é generosa e altruísta, visando antes tão-somente o seu próprio (ilusório) engrandecimento — tudo faz para ter o seu reconhecimento. Já que não se dá qualquer atenção generosa ao que os outros precisam, nem se lhes tenta devolver o que de outros recebemos, seria mais coerente não dar qualquer importância ao que pensam de nós, dedicando a nossa atenção exclusivamente ao que nos interessa e realiza.
Não é por um qualquer moralismo provinciano que a vaidade é condenável, mas antes porque envolve inevitavelmente a falsidade. A primeira é a falsidade acerca do que nos dá ou não valor: somos prezáveis ou desprezáveis sobretudo em função de acrescentarmos valor ou desvalor ao mundo, e não em função exclusivamente do que os outros pensam de nós. Nomeadamente, porque os outros podem estar profundamente enganados quanto ao valor do que fazemos, sendo uma lição óbvia da história que nem as grandes multidões nem os ambientes sufocantes de pequenas comunidades autofágicas produz costumeiramente pessoas de juízo apurado quanto ao que tem ou não valor.
A segunda é a falsidade acerca das nossas capacidades para ajuizar honestamente as coisas. Sendo verdade que nenhum de nós é infalível, e que precisamos de contrastar cuidadosamente os nossos juízos com os dos outros, é no entanto falso que tenhamos de o fazer com quaisquer pessoas. Eu não tenho de ir à sapataria ver se as pessoas lá prezam a actividade filosófica, por exemplo, tal como um pintor não tem de ir ao banco ver se as pessoas lá prezam a pintura. Ele e eu sabemos com razoável honestidade, pelo conhecimento da própria história da humanidade, que a filosofia e a pintura têm valor.
Claro que não sabemos, nem ele nem eu, se as coisas particulares que fazemos — os quadros que ele pinta, os textos que eu escrevo — se têm valor superlativo. Mas é pura e simplesmente falso que não saibamos que têm valor, se o fizermos com honestidade e o avaliarmos friamente. Não podemos saber se tem valor superlativo porque isso é algo que talvez só se saiba em contraste com a restante produção do nosso tempo histórico; mas podemos perfeitamente saber se tem ou não um valor modesto, que resulta de um trabalho honestamente feito que visa a excelência e não o engrandecimento pessoal.
Mas se isto for assim, então também não é particularmente sábio ansiar pela aprovação dos que nos rodeiam, porque também eles não sabem se o nosso trabalho tem realmente valor superlativo. Pelo que voltamos à única coisa que podemos saber: é um trabalho modesto bem feito, ou não? E isto podemos saber sem ter de o ver reflectido nas palmadinhas nas costas de quem nos rodeia.
A vaidade, e a ilusão cognitiva que parece estar na sua base, poderá explicar a atenção exagerada que hoje se dá à originalidade, em detrimento da criação, confundindo-se ambos os conceitos. A criação não tem de ser original; criar é um acto maravilhoso em que usamos as nossas capacidades e talentos, fruto de anos de estudo e trabalho, e criamos algo por nós mesmos. É irrelevante se isso que estamos criando é superlativamente original ou nem por isso; o que realmente conta é que não é uma cópia, é algo que criamos, e criamo-lo porque nos treinámos durante anos para poder criá-lo.
A originalidade é apenas a novidade superlativa. E uma vez mais não podemos realmente saber, mergulhados que estamos no nosso tempo, se algo é superlativamente original ou se apenas o parece. A vaidade parece explicar a importância desmedida que tantos criadores conceptual e psicologicamente confundidos dão à originalidade: ser criador, deste ponto de vista embaciado, é ser original, ser diferente, para ser invejado pelos outros. A verdade é que ser um criador é criar algo novo mesmo que não seja uma novidade. E a ideia de que só tem valor a novidade é pura e simplesmente infantil: a primeira sonata para piano não tem mais valor por ser a primeira, nem o primeiro quadro cubista tem mais valor por não existir qualquer quadro cubista anterior.
É verdade que prezamos e admiramos, correctamente, a novidade superlativa. Esta é, sem dúvida, uma manifestação valiosa da criatividade. Mas ocorre com a originalidade um pouco o que ocorre com o paradoxo do hedonismo: se tudo o que visarmos for o prazer, em vez de outros valores importantes na vida, teremos uma vida menos prazerosa; analogamente, se tudo o que visamos na criação for a novidade retumbante, não seremos provavelmente capazes nem de criar algo de valor modesto, que possa ser honestamente ajuizado como valioso.
A incoerência da vaidade consiste em menorizar a avaliação honesta que nós mesmos podemos fazer das nossas actividades, dando valor superlativo ao juízo de pessoas que, porque as desprezamos, não visamos ajudar com o nosso trabalho honesto. O susto permanente em que vive o vaidoso torna o seu estilo de vida pouco recomendável. O criador modesto, pelo contrário, visa apenas acrescentar modestamente valor ao mundo, devolvendo aos outros o que de outros colheu. E se a vida de um tende a ser endeusada no cinema de Hollywood e noutras manifestações de infantilidade, é a vida do outro que devemos querer para nós próprios, se quisermos sentir-nos felizes e realizados."

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Bola maior

"Todos os sábios, poetas, filósofos, tiranos, santos e genocidas; todas as pessoas que você conhece, ignora, respeita, despreza, ama ou odeia vivem, ou já viveram, suas vidas inteiras na bola maior. É lá também que estão todos os seus problemas, sonhos e esperanças.

Todas as guerras e crimes, bem como todos os grandes e pequenos atos de sacrifício e generosidade já registrados em algum momento da história aconteceram lá.

Já a bola menor marca a maior distância já viajada por membros de nossa espécie. É o limite atual da experiência humana". Carl Sagan

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O Brasil depois das urnas

O Brasil depois das urnas
NEY FIGUEIREDO


Administrar o país e cuidar de alianças políticas para dar sustentabilidade ao governo não será tarefa fácil, seja qual for o nome que sair das urnas




Com as cartas na mesa, o mais importante é indagar que estilo de governo resultará das próximas eleições. Não se pode deixar de apontar diferenças fundamentais entre os dois principais oponentes: a candidata petista, se vencedora, poderá ser continuadora do governo Lula, dependendo das pessoas que a cercarem.
Se o núcleo predominante for ocupado pelo próprio Lula e por nomes como Antônio Palloci, Fernando Pimentel, Paulo Bernardo e José Eduardo Cardoso, é provável que as linhas centrais da política econômica não se afastem muito do modelo atual.
Contudo, se a ala mais radical do PT assumir as rédeas, coisa que Lula nunca permitiu, poderemos ter sérias turbulências pela frente: mais controle do Estado pelo partido, mais burocracia e corporativismo, mais corrupção, mais uso de controles não democráticos, além de aproximação com governos autoritários.
Até o momento, ela tem tido opiniões firmes, com as quais podemos ou não concordar, e tem lutado, como fez durante toda a sua vida, pelo que acredita.
É impossível prever com exatidão qual será o seu comportamento quando estiver, se estiver, na solidão do poder do Planalto, tendo de conviver com uma aliança política que limitará o seu espaço de manobra.
É necessário lembrar que teremos um vice-presidente da República com voo próprio, dirigente de grande partido político e líder de uma bancada majoritária na Câmara e no Senado.
Serra, por outro lado, deverá ter uma gestão mais competitiva, transparente, com menos ingerência de forças partidárias-sindicais.
Não contará, pelo menos no início de seu eventual governo, com maioria na Câmara e no Senado, o que lhe obrigará a gastar grande parte do seu tempo em tentar aumentar a sua base de apoio parlamentar -algo parecido com o que aconteceu no segundo mandato de Fernando Henrique.
Certamente, haverá um novo direcionamento do papel do Estado na economia, o que poderá desagradar parte dos seus apoiadores.
Seja quem for o eleito, vai encontrar o país gozando dos frutos da estabilidade advinda de uma política econômica que seguiu os fundamentos básicos plantados pelo governo de Fernando Henrique, fazendo com que o nosso país passasse com louvor pela recente crise internacional.
Todavia, não se pode deixar de lembrar que o eleito terá que enfrentar a bomba de efeito retardado que Lula vai deixar para o seu sucessor. A política fiscal foi afrouxada, abandonando-se as rígidas metas fiscais do primeiro mandato.
Abriu-se um generoso saco de bondades, ampliando-se de forma inusitada os programas assistenciais. A máquina pública foi inchada com a criação de milhares de cargos, a maioria ocupada por indicados do principal partido de sustentação do governo, o PT.
Administrar o país e cuidar das alianças para dar sustentabilidade política ao governo não será tarefa fácil, seja qual for o nome que resultar das urnas.

NEY FIGUEIREDO, 72, consultor político, é membro do Conselho Superior de Pesquisa de Opinião Pública da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e diretor do Cepac - Centro de Pesquisa, Análise e Comunicação. É autor de "Diálogos com o Poder", entre outras obras.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

FOLHA DE S. PAULO

sábado, 21 de agosto de 2010

TV nunca mudou eleição presidencial

Desde 89, candidato que estava na frente no início da propaganda eleitoral sempre ganhou a disputa no final

Em outras eleições, como na vitória de Kassab em 2008, TV foi crucial para alterar resultado da disputa

RANIER BRAGON
FERNANDA ODILLA
DE BRASÍLIA

A campanha na TV tem histórico de relevantes movimentações na intenção de voto dos candidatos à Presidência, mas até hoje não teve impacto suficiente para tirar a vitória daquele que iniciou o período na dianteira.
Nas cinco eleições presidenciais após a redemocratização -de 1989 a 2006-, saiu vitorioso o candidato que liderava as pesquisas imediatamente antes da entrada da campanha na TV.
A análise das planilhas do Datafolha mostra que se encontravam nessa situação Fernando Collor (PRN) em 1989, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em 1994 e 1998, e Lula (PT) em 2002 e 2006 -em 94, FHC dividia a ponta com Lula, em empate técnico, mas em ascensão.
Apesar disso, a propaganda televisiva coincidiu com períodos de movimentações que em dois casos levaram um cenário de vitória em primeiro turno para o segundo.
Em 1989, Collor abriu o período da propaganda com sete pontos de vantagem sobre todos os principais oponentes somados. No final, havia caído de 40% para 26% na pesquisa. Embolado na terceira posição, Lula praticamente dobrou seu índice e, por margem estreitíssima, derrotou Leonel Brizola (PDT) e foi ao segundo turno.
Nas vitórias de 1994 e 1998, ambas no primeiro turno, FHC tinha mais minutos na programação eleitoral e assistiu no período televisivo a uma ampliação da vantagem em relação a Lula.
Já em 2002, Lula iniciou a TV com Ciro Gomes (PPS) como seu principal oponente. Entretanto, Ciro derreteu de 27% para 11% das intenções de voto, desempenho em parte atribuído à exploração na TV de frases polêmicas e da discussão com um eleitor.
José Serra (PSDB), dono da maior fatia eletrônica, acabou indo ao segundo turno.
"O horário eleitoral sepultou as chances de Ciro por conta das bobagens que ele falou", disse o cientista político Marcus Figueiredo, professor da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro),
Autor de estudos sobre o tema, ele diz que a propaganda na TV constrói a imagem dos candidatos e pauta debates, mas que está longe de ser a única variável para que o eleitor defina seu voto.
Na disputa de Lula pela reeleição, em 2006, o petista vencia o conjunto dos principais oponentes por dez pontos no início da propaganda.
Em meio à repercussão do episódio em que petistas foram presos tentando comprar um dossiê antitucano e após faltar ao último debate, na TV Globo, teve que disputar o segundo turno com Geraldo Alckmin (PSDB).
As planilhas do Datafolha mostram não haver padrão sobre o momento da campanha na TV em que as intenções de voto se estabilizam.

OUTRAS ELEIÇÕES
Houve mudanças, no entanto, no resultado final de outras eleições. Um dos exemplos mais claros é o da eleição de Gilberto Kassab (DEM) à Prefeitura de São Paulo, em 2008. Em 22 de agosto, na semana de início da propaganda na TV, ele tinha 14%, contra 41% de Marta Suplicy (PT) e 24% de Geraldo Alckmin (PSDB).

Extraído de FOLHA DE SÃO PAULO

Cai o ritmo de crescimento do ensino superior

Apesar de as grandes empresas nacionais e estrangeiras enxergarem enorme potencial no mercado de educação, o ritmo de expansão do ensino superior vem caindo.
Segundo a Semesp, o número de instituições privadas saltou 148% de 1999 a 2009. No entanto, o ritmo de alta caiu de 15% entre 2000 e 2004 para 5% nos outros cinco anos.
Os motivos são a carência de financiamento e a baixa qualidade da educação básica, que forma pessoas despreparadas.
Com isso, apenas 14% dos jovens de 18 a 24 anos estavam na universidade em 2009. A meta do governo era elevar esse percentual para 30% em 2010.
A expectativa da Hoper é que o faturamento das empresas (R$ 25 bilhões em 2009) cresça 5% nos próximos três anos.
O Morgan Stanley projeta crescimento de 5% a 6% para o setor nos próximos anos. Segundo o banco, uma expansão mais acelerada depende de como será aplicado o dinheiro do Fundo Social a ser criado com recursos do pré-sal.
Ryon Braga, da Hoper, sugere que o governo crie um fundo de garantia para financiamento privado, o que derrubaria os juros.
"É melhor do que criar novas universidades públicas com custo médio anual de R$ 24 mil por aluno, ante média de R$ 5.000 no setor privado. As privadas estão com vagas sobrando." (MS)

Extraído de FOLHA DE SÃO PAULO

domingo, 4 de julho de 2010

Realiade tal como é

"O fato de a virtude e a civilização estarem em declínio já se encontra acima de qualquer dúvida. A própria linguagem está corrompida e a falência moral é mascarada pelos eufemismos. [...] Para Platão e Aristóteles, a ética era tida como uma ciência racional, já que a questão de como o ser humano deve viver para tornar-se cada vez melhor é objetiva. O modernismo, entretanto, inaugurou uma concepção de ciência como estudo de uma natureza vazia de propósito e assimilou toda a razão aos métodos empíricos e lógicos da ciência. Com base nesse modelo reducionista, não se tem como justificar a ética tradicional racionalmente, porque ela não é nem verificável pela observação nem pode ser provada através da lógica. No lugar da ética tradicional, portanto, foi preciso colocar algum substituto racional. [...] Os educadores até mostram boas intenções ao tentarem preparar as crianças para os perigos deste mundo, informando-as sobre as drogas, a violência e o abuso sexual, mas tais programas não falharam apenas em promover o caráter delas, eles “saíram pela culatras, exacerbando os dilemas que buscavam resolver”. Causaram assim o crescimento do medo, paranóia, e, portanto, do ódio e da falta de esperança, que atualmente incentiva as crianças a experimentar aqueles comportamentos que elas sabem muito bem que são perigosos. O fato de uma pessoa meramente saber que algo pode lhe fazer mal não será suficiente para a dissuadir, se a vida lhe parece privada de sentido e ninguém lhe incutiu motivações mais nobres".

“Virtue, Civilization and the Restitution of Man”. Angus Menuge

domingo, 27 de junho de 2010

Quadrilha

João amava Teresa,

que amava Raimundo,
que amava Maria,

que amava Joaquim,
que amava Lili,

que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos,

Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre,

Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se

e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Blowin' in the wind

How many roads must a man walk down,
Before you call him a man?
How many seas must a white dove sail,
Before she sleeps in the sand?
Yes, and how many times must cannonballs fly,
Before they're forever banned?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind

Yes, and how many years can a mountain exist,
Before it's washed to the seas (sea)
Yes, and how many years can some people exist,
Before they're allowed to be free?
Yes, and how many times can a man turn his head,
And pretend that he just doesn't see?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind.

Yes, and how many times must a man look up,
Before he can see the sky?
Yes, and how many ears must one man have,
Before he can hear people cry?
Yes, and how many deaths will it take till he knows
That too many people have died?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind

Bob Dylan